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Bullying por um leigo (corrigido)

Quando eu andava na escola, nada mais me irritava do que ouvir o meu pai dizer que no tempo dele a “4ª classe dele equivalia ao meu 7º ano!” Que no tempo dele aprendiam tudo como deve ser, na ponta da língua e que “não era como agora..."

Sou de ’75 e sou do tempo em que os professores chumbavam alunos na primária! Só passava de ano quem merecesse (ou levasse cabaz de natal…)…
Sou do tempo em que os professores eram figuras de autoridade (algumas autoritárias, é verdade) a quem os pais reconheciam competência pedagógica e, ao mesmo tempo, delegavam tacitamente o direito de correcção por mau comportamento do aluno. Confesso que, não estando no grupo dos "mal comportados", de vez em quando pisava o risco e, consequentemente tive a minha quota de puxões de orelhas, par de estalos e reguadas. Não valia a pena “fazer queixa” à minha mãe. Cedo percebi que o entendimento dela era “se ela te bateu, foi porque alguma coisa fizeste e assim sendo, mereceste!”.

Como diz o João, citando a Confap, “os paradigmas sociais e familiares mudaram e com eles novas formas de comportamentos e de atitudes surgem todos os dias”.
Os tempos de mãe que ficava em casa enquanto o pai estava embarcado vão longe. Agora os outrora filhos são pais ocupados. Ambos trabalham e “não têm tempo para o filho”. A escola tornou-se um ATL a tempo inteiro em que “descarregam” os filhos de manhã e vão buscá-los à noite. Chegada a noite, é hora da bola ou de passar a ferro e de deitar a criança. Cresce sozinho sem nenhum tipo de suporte educacional e emocional com os pais que o geraram...

Quando o menino ou menina criam problemas na escola, chamam-se os pais. Aqui entra em campo o subconsciente, a trabalhar como nunca. Como se estivessem a arranjar uma desculpa pela “falta de tempo” para acompanhar os filhos pois “trabalham muito” fácil e rapidamente arranjam os culpados ideais, ali, mesmo à mão de semear: os “burros dos professores” que “não sabem ensinar” e que é por causa disso que os seus filhos têm más notas e comportam-se mal porque "são discriminados em detrimento de os outros alunos"… e outras alarvidades destas. Se o professor ousar dizer que o puto apresenta problemas comportamentais motivados por (des)educação, pode haver lugar à agressão verbal e física dos professores. Nada de mais, é só a continuação do serviço iniciado pelo aluno. Este assiste os seus pais, tios e avós a “descascarem” nos professores. E fica contente por estar a ser defendido. E fica com mais uma lição para o futuro: imputabilidade…
Ao contrário do que fazia a minha mãe, os pais de hoje parecem partir do princípio de que o aluno é o melhor filho do mundo, educado, bem-comportado, muito inteligente e sub-estimado. Se levar pistolas, facas, bombas e outras coisas quaisquer para a escola, a culpa não é do aluno ou dos pais, mas sim dos vigilantes ou professores que deixaram passar as armas… Ou então, coitado, está apenas a "chamar à atenção" ou é "hiperactivo"... Chamadas de atenção e hiperactividade ou "tá-sessegade-ricarde-jorge" (o tal biche carapintêre) eram resolvidos, paulatina e tranquilamente com um par de estalos ou com aquela sandália de borracha grossa que o meu pai usava no navio... Não me fez mal nenhum.
Verificado algum destes incidentes na escola, seguem-se os trâmites com a suspensão do aluno e inquérito ao professor. Depois, como nada acontece, volta o aluno às aulas como se nada se tivesse passado sabendo agora (porque aprendeu!) que pode fazer o que quiser pois não será expulso e que, independentemente das notas que tiver, passará tranquilamente de ano até ao 12º ano em nome dos rankings e do “combate ao insucesso escolar”.

Há professores com baixas psiquiátricas. Ao que parece, suicidou-se um professor com génese dos maus tratos ministrados pelos alunos…
Não quero com isto dizer que no meu tempo éramos todos uns santinhos. Pelo contrário: fui vítima de bullying, "fiz" bullying. Faz parte do crescimento, presumo. O que me parece ser diferente hoje em dia, é o nível de violência muito mais elevado e com recurso a armas que nós nem sonhavamos usar.

Culpados? Não sei, não tenho formação para imputar responsabilidades. Mas julgo que os pais têm de ser mais pais e menos angariadores de recursos económicos para o sustento do lar.
Uma coisa é certa: as crianças são as menos culpadas nesta matéria. E se pensássemos nelas?

O que me custa é que, passados 20 anos, custa-me repetir as mesmas palavras do meu pai quando digo ao meu sobrinho que no meu tempo não era assim…

1 Comentários:

barraca37 disse...

Quando algum filho/a meu for para a escola a primeira coisa que hei-de dizer ao seu professor é que amanse o pêlo se se portar, de alguma forma, mal.

Não acredito em professores que sejam tão maus que coloquem o seu posto de trabalho em risco! Por isso, terão sempre o meu aval para o belo do puxão de orelhas ou até para umas reguadas valentes... que já nem sei se existem!

Abraços e parabéns pelo texto!